quarta-feira, 1 de junho de 2011

O antes do fim

O medo de conseguir é algo intrigante.
Intuir, preparar, fazer, deixar acontecer e...sentir medo da conclusão.
Sentir medo do sucesso.
Curioso esse movimento. Tão surpreendente quanto paradoxal.
Se a consagração é uma certeza, nesse caso, a certeza é de um refugo.
Mas para que fugir?
Que sentido há de ter tamanha covardia e sabotagem?
Um sucesso desmerecido? Um caminho sem volta?
Influir no mundo? Angariar responsabilidades?

Que medo é esse? Que limite é esse?
Medo de tudo ou medo do nada?

Receio de concluir, encerrar. Fechar e fechar-se, saber e saber-se...
...Ahhh, há mistérios demais nessa vida!

Mistérios suficientes para me inclinar a desistir de enxergar e cravar as respostas.
E nem menos, nem mais feliz,
Me satisfaço com o quase.

sábado, 7 de maio de 2011

Ser, sentir e pensar

Em algum momento e lugar no passado, de alguma forma, apareceu um Ser diferente de todos os outros. Dotado de capacidades singulares, dentre as quais era capaz de inventar e predicar.

A principio, viveu imerso numa imaginação que ocupava os vazios do desconhecido. No lugar da abstração, o puro experienciar em harmonia com o indagar-se sobre as coisas.

Com o passar do tempo, esses vazios passaram a ser preenchidos com aquilo que mais indubitável pudesse parecer e aparecer. A constância e regularidade das coisas foram factíveis de acalmar o agitado Ser que via nessas qualidades uma fidelidade, uma resposta sincera do mundo.

Dali em diante, a imaginação mudou seu lugar. Passou a ser o inútil da vida. Passou de exercício a hobby. De essência a um contemplar barrado, sempre advertido de que "aquilo não é a vida".
E assim segue. Reproduz-se um mundo sem porques. Um mundo pensado, e não vivido. A invenção foi destituída de sua semântica mais pura e se tornou um objeto bem delimitado.

E depois de tanto tempo de surgimento desse Ser estranho, o que estranha é o dar-se conta de que não se evoluiu. Ou, pelo menos, a sensação de que não se evoluiu aquilo que se esperava. A crença num controle, no fechamento de possibilidades, proporcionou a estes seres um degustar da vida. E só.

Para um Ser faminto como esse, é muito pouco.

Para um Ser sempre convocado e afetado, significar o que se sente já é tarefa árdua. Imagine adotar significados impessoais e impô-los? Já dizia Merleau Ponty: "O conceito inteiro e o pensamento objetivo inteiro vivem de um fato inaugural cuja expressão é: senti."
Ou seja, hoje se faz o caminho oposto. Já se "sabe" o que se sentiu. Está dado. É conhecido. Estudado e comprovado. Basta se desencobrir e adequar-se.

Empobrece-se a experiência e assalta-se os sentidos das existências.
E é dessa forma que caminha o Ser, em sua esteira moderna. Engessado e limitado.
Sem presença e sem lugar.
Da sua condição fundamental, foi - só - isso que conseguiu fazer. Estabeleceu uma atitude covarde e desconfiada com a experiência.
E quanto mais se pensa que o progresso está ligado naturalmente ao tempo, menos se compreende todo o sofrimento vigente.

Os vazios estão escancarados. E nunca estiveram tanto.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Autopoiese

Em certas horas me sinto tão angustiado, desamparado,
Melancólico...
O mundo parece correr mais rápido lá fora, e o tempo mais devagar aqui dentro.
A falta de respostas transbordam num n de perguntas.
A dor é uma e dói constante.
O calor incomoda, o frio também.
A luz é muita, o escuro não é suficiente.
O passado é somente fragrância e respirar é inevitável; só tristeza.

Nas certas horas, me encontro com a angústia e o desamparo,
Melancolia!
O mundo para e eu o vejo de cima.
E respondo as perguntas com perguntas
E a dor doi, mas não é doída.
O calor acomoda o frio
Assim como o escuro dispensa a luz que cega.
E o passado encontra o futuro,
Num agora cheio de vida; não só tristeza!

quarta-feira, 30 de março de 2011

Potência de vida

"Vida e Morte não são o defeito, mas o efeito de nossa vida" C.A.

quinta-feira, 17 de março de 2011

Paixão ad eternum

Uma grande paixão, mesmo muito frustrada em sua promessa ou tentativa, sempre permanece num canto bem especial do coração. Impossível ignora-la ou ser indiferente.

Não dá pra esquecê-la por um motivo simples e conhecido: a vida é finita. A paixão na ocasião da explosão, um período agitado de furor que distorce a percepção das coisas, que coloca o corpo e a alma em harmonia e muda o eixo dos acometidos. Um acontecimento com 100% de pureza do significado da palavra. instante raro e eventual, marco! Momento onde você certamente lá na frente vai se lembrar e pensar: Ajo assim e sou assim porque senti aquilo e vivi isso e aquilo com aquela pessoa. Uma fase que tem valor porque nos constrói, aponta sentidos e direções, pois somos o que experienciamos e como experienciamos. E ao mesmo tempo, tudo isso só é possível nessa curta vida! Só nela é que podemos nos apaixonar, sorver de toda emoção que é amar! É ou não sagrado? E isso, vez ou outra, retorna a nós. Vez ou outra percebemos, sentimos isso...

Assim, por mais sofrido que tenha sido, depois da tormenta, as lembranças tratam de ser justas com o acontecido. É a gratidão podendo ascender após dissolver o orgulho. Urge dentro de nós a raridade do momento, a finitude da vida, e como são fascinantes os caminhos das coisas. É por essas e outras que uma paixão é, e pra sempre é.

terça-feira, 15 de março de 2011

O destino do amor

Eu nasci, chorei.
Cresci e a vi.
Amei e sofri
Morri.
Voltei e não mais amei.
Embotei, endureci e insisti
mas a vi e senti
Morri, mas amei
Sofri mas cresci
Chorei e nasci
e do amor eu vivi.

O não ver para crer

São nos momentos de bem-vinda solidão que sinto algo especial do mundo. As vozes se tornam mais altas e conseguem tocar meu peito. Me sinto cheio de pensamentos querendo transcender sua comum dinâmica. Querendo respirar, falar, pensar, tomar vida. Querendo desabafar o segredo que guardam as coisas. E assim, no momento ideal e raro de alinhamento entre discrição e vontade, o presente me assalta e, antes de sequer cogitar, sinto uma presença, um surto paranóico que coexiste naturalmente com a certeza da loucura. É a aceitação do que é grandioso, a aceitação do desconhecido, que não necessita de hipóteses da verdade. Nesse lampejo, o que desconheço é um vazio cheio que me faz sorrir chorando. E torno a tomar bom afeto pela imaginação, pela fantasia, pelo paradóxo e pela vida. Estou pronto novamente para produzir e me renovar.